
A Manhã vem chegando devagar, sonolenta com três quartos de hora de atraso.
Se lhe acontecer arranjar marido rico não mais trabalhará e só acordará depois das onze e com café servido na cama.
Sozinha a Manhã levaria horas a iluminar o sol, mas o Vento, soprador de força, vem ajudá-la.
Fanática por uma boa história, a Manhã se atrasa ainda mais, atenta às histórias do Vento, ora engraçadas ora tristes.
Ora com estes atrasos os relógios e os galos perderam a cabeça e fizeram queixa ao Tempo. Este que tinha uma certa fraqueza pela Manhã e não ligou muito, pois ela fazia-o esquecer a suprema chatice da eternidade e a bronquite crónica.
No entanto, as queixas foram-se acumulando e o tempo viu-se na obrigação de ralhar com a Manhã e ameaçá-la com um castigo.
A Manhã confessou:
-Meu pai, fiquei ouvindo o Vento contar uma história. Perdi a hora.
-Uma história - interessou-se logo o Tempo - conta-me e, se for realmente uma boa história, não só te desculparei como te darei uma rosa azul, que medrou há séculos e hoje não se encontra mais.
Sentou-se a Manhã aos pés do mestre e começou a contar a história. A meio da mesma o Tempo adormeceu, mas a Manhã não se interrompeu.
Vamos então ouvir a história:
Quando a primavera chegou o Gato Malhado espreguiçou-se e abriu os olhos pardos, olhos feios e maus. Era um gato de meia-idade, corpanzil forte e ágil de riscas amarelas e negras. No entanto era um solitário, não mantendo relações de amizade com ninguém. Tinha até má fama.
O Pato Negro quando olhou, pareceu-lhe que o gato estava sorrindo e quase desmaiou, por sua vez a Pata Branca levou a mão ao peito de tão espantada que estava.
O gato se levantou e começou a andar e quando fez deu-se uma debandada geral entre os habitantes do Parque. O Gato suspirou e olhou em volta, mas não havia ninguém. Só depois reparou que no ramo de uma árvore estava a Andorinha olhando e sorrindo para ele.
O Gato sentou-se, alisou os bigodes e perguntou:
- Porque não fugiste com os outros?
- Eu? Fugir? Não tenho medo de ti, os outros são todos uns covardes. Tu não voas por isso não me podes alcançar. És um gatarrão tolo e feio. E olha lá que és feio…
- Feio eu? – e o Gato riu com vontade.
- Tu me achas feio? – perguntou – De verdade?
- Feiíssimo – Disse a Andorinha
- Não acredito. Só alguém cego poderia me achar feio.
- Feio e convencido – argumentou a Andorinha
Entretanto a conversa não continuou porque os pais da Andorinha Sinhá vencendo o medo, chegaram voando e levaram-na, ralhando com ela. Mas ela ainda teve tempo de dizer ao Gato:
- Até logo, seu feio.
E foi a partir daqui que começou toda a história do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá.
Entretanto todos os habitantes do Parque estavam preocupados com a Andorinha Sinhá, até a vaca Mocha que no parque gozava de tanto prestígio como a velha Coruja. A Vaca Mocha, Rachel Púcio não gostava do Gato Malhado porque em tempos idos tinha havido uma troca de palavras menos boas entre os dois. Ora quando a Andorinha Sinhá lhe contou que havia travado amizade com o Gato, Rachel Púcio ficou horrorizada e tentou convencer a Andorinha a terminar tal amizade, que aos seus olhos era muito inconveniente. Sinhá ouvia atenta e educadamente e prometeu até que não mais conversaria com ele. Mas juramento de Andorinha não vale muito e Sinhá, apesar das proibições de seus pais, continuou a encantar-se e a conversar com o Gato Malhado.
Eis-nos entretanto chegados ao Verão que ia curto. A Andorinha e o Gato encheram seus tempos de passeios, com longas conversas, com sorrisos e palavras murmuradas, com olhares tímidos mas expressivos e algumas zangas também.
Estas zangas tinham a ver com os ciúmes que o gato tinha das saídas da Andorinha com o Rouxinol, que era professor de canto.
Num dos dias em que a aula de canto demorara mais, os bigodes do gato estavam tão murchos que tocavam o solo. Sinhá pediu-lhe então uma explicação para aquela tristeza ao que o Gato respondeu:
- Se eu não fosse um gato, te pediria para casares comigo…
A Andorinha ficou calada pois aquelas palavras eram gratas ao seu coração, mas ela tinha medo. Ele era um gato e os gatos são inimigos inconciliáveis das andorinhas. Ela levantou voo, voou rente ao Gato e foi embora. Era o último dia de verão.
O Outono chegou derrubando as folhas das árvores e o vento que sentia frio, para se aquecer corria fazendo barulho pelo Parque. Não era só a paisagem que sofreu mudanças mas, também a atitude dos habitantes do Parque em relação ao Gato. Já não sentiam medo dele. Para esta mudança tinha contribuído o facto de nas duas estações antecedentes o Gato não ter atacado ninguém, ter sido amável para todos e ter derrotado a Cascavel que se tinha aventurado no Parque. Ora, nos primeiros dias de Outono vamos encontrar Gato embrulhado num manto de lã a escrever um soneto dedicado à Andorinha. Passemos a lê-lo:
Não sei cantar nem voar,
Não tenho asas nem penas,
Não sei Soneto escrever
Muito amo a Andorinha,
Com ela quero casar.
Mas a Andorinha não quer.
Comigo casar não pode
Porque sou gato malhão
Ai! Gato malhado.
E voou.
A Andorinha Sinhá
A Andorinha Sinhó
A Andorinha bateu asas
Vida triste minha vida
Também por esses dias a velha Coruja tinha aproveitado para conversar com o Gato e foi franca com ele, tendo-lhe dito que o sonho de ele casar com a Sinhá não passava disso mesmo, um sonho, pois nunca em tempo algum tinha havido entre gatos e andorinhas qualquer relação amorosa. O Gato ouviu sem nada a dizer e foi então que resolveu escrever tal soneto. Entretanto foram passando os dias de Outono e no último dia, a Andorinha e o Gato foram passear e foi aí que ela lhe comunicou que seria a última vez que estariam juntos pois ela estava de casamento marcado com o Rouxinol. O Gato com desgosto deixou de falar fosse com quem fosse, vivendo apenas das suas recordações, dos bons momentos vividos com a sua amada.
No momento em que o cortejo nupcial, numa revoada, saía da capela a Andorinha viu o Gato no seu canto e ao passar por ele deixou cair uma pétala de rosa vermelha do seu ramo de noiva. O Gato a colocou no peito onde parecia ser uma gota de sangue. O Gato guardou a pétala de rosa e olhando mais uma vez o Parque, saiu andando devagar. E dirigiu-se à encruzilhada do fim do mundo.
E aqui termina a história de um grande amor que a Manhã ouviu ao Vento e contou ao Tempo para ganhar uma linda rosa azul
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